Aptidão. É provavelmente esta a palavra que muitos procuram mas poucos a têm. Estar apto é conseguir reunir em si todas as qualidades e competências que possibilitem a execução de qualquer actividade com a qualidade exigida e merecida por quem beneficia ou necessita dessa mesma actividade. É difícil sabermos ao certo se somos ou estamos aptos, mas na enfermagem essa questão ganha uma envolvência importante.
Aptidão em enfermagem não se resume apenas àquilo que exteriormente valemos. A grande "fénix" na enfermagem é a humanidade. Renascermos todos os dias apesar de muitos deles serem completos com injustiças ou finais tristes. Essa humanidade encontra-se bem no interior de nós e nasce connosco. Podemos andar muitos anos a estudar, possuir muitos conhecimentos e executarmos as técnicas como ninguém, mas é fulcral olharmos para as pessoas e sabermos sentir tudo aquilo que as pessoas necessitam de nós. Claro que sem conhecimento e técnica não se faz um enfermeiro, mas a humanidade é a premissa para o resto. Não se pode construir uma casa sem as paredes. Não se pode ser pintor sem tinta. Não se pode ser escritor sem caneta. Não se pode ser enfermeiro sem humanidade.
Em Portugal a humanidade escasseia, ao mesmo ritmo que aumenta o número de enfermeiros. Estará algo mal? Na minha opinião sim. Nos últimos anos muitos dos que optaram por serem enfermeiros fizeram-no porque não tinham mais opções, porque os seus familiares assim o quiseram, porque sendo filhos de pais de senhores doutores a profissão mais "perto" da medicina era a enfermagem ou porque sendo filho de enfermeiro(a) seguem quase por inerência a profissão. É polémico dizer isto? Talvez. Falo por experiência própria. Assisto cada vez mais a muitos enfermeiros por obrigação ou à força.
Terminei a minha licenciatura à um ano e continuo sem emprego. Durante estes 12 meses tenho assisto a muitos dos meus ex-colegas e colegas (alguns continuarão a o ser para sempre) a conseguiram emprego. Provavelmente por me ter formado numa das melhores faculdades ao nível da enfermagem em Portugal, cedo me apercebi que para ter futuro na enfermagem tinha que investir muita nela. Foram 4 anos de grande investimento, muito dele financeiro, e de uma grande dedicação. É por essa exigência que cedo aprendi que vejo que a enfermagem caminha mal. Muitos dos enfermeiros entram neste momento nas instituições públicas não pelo seu valor, mas sim por cunha. Lidamos com pessoas e não com objectos. Não será perverso colocar a saúde dos cidadãos portugueses em risco (e a probabilidade é cada vez maior) permitindo que os enfermeiros sejam adquiridos sem critério nenhum?
Talvez por não ter mais nada que fazer, mas sobretudo por ter honra naquilo que sou e naquilo que valho como enfermeiro, decidi dar início a este blog. Tenciono dar voz e destaque a todas as situações que colocarem em causa todos os enfermeiros. Temos uma história que nos orgulha e que tem de ser defendida.